A ausência da luz na recuperação do paciente.

por Marlu Alves

Iluminação circadiana. (imagem: Chromaviso)

É sabido por nós arquitetos a importância da iluminação, particularmente a iluminação natural, nos ambientes habitados. Em se tratando de ambientes de saúde, o Design Baseado em Evidências nos comprova seus benefícios no processo de cura do paciente, recuperação da saúde de forma mais rápida, dor amenizada e, de certa forma, é assertivo dizer que há uma sensação geral de bem-estar quando o paciente tem acesso à luz do dia.

É certo que a maioria das pessoas sente-se mais feliz em seus dias ensolarados do que em dias nublados. Além disso, há também uma maior sensação de segurança durante o dia, e em locais iluminados, do que à noite e em locais mal iluminados. Fato é que, nós tememos o que não podemos ver. O contraste é até mesmo alegórico: a bondade está associada à luz, enquanto alguém chamado O Príncipe das Trevas é certamente mau. 

A luz é importante para todas as pessoas, ela auxilia na regulação do nosso relógio corporal, afetando processos químicos em nosso cérebro e apoiando um metabolismo saudável.


Iluminação circadiana. (imagem: Chromaviso)


Então perguntamos. Em que, a ausência de luz pode nos auxiliar? Acontece que a escuridão é tão importante quanto a luz, e sua existência pode nos ser também saudável. Somente na escuridão certas funções corporais ocorrerão.

Os nervos ópticos dos nossos olhos sentem a luz, mesmo em pessoas com deficiência visual, dizem especialistas. Ainda que sem receptores visuais, quando a luz é percebida, um sinal é enviado ao cérebro de que é hora de acordar. Os níveis de cortisol aumentam, a produção de melatonina diminui e nossos corpos se preparam para o despertar. Acontecendo isso à noite - quando deveríamos estar dormindo - perdemos alguns dos benefícios restauradores do sono. Pesquisas feitas mostraram que isso pode ter efeitos deletérios sobre os níveis de gordura corporal, inflamação sistêmica e resistência à insulina. A melatonina, que é produzida quando está escuro, reduz a pressão arterial, a temperatura corporal e os níveis de glicose. A luz à noite interrompe os ciclos normais dos nossos corpos e tem um efeito negativo na nossa saúde. Portanto, deveríamos estar dormindo na escuridão total.


Iluminação circadiana. (imagem: Chromaviso)

Nos Estados Unidos da América, os Centros de Serviços Medicare e Medicaid parecem reconhecer a importância do bem-estar do paciente ao incluir um item na pesquisa HCAHPS (Hospital Consumer Assessment of Healthcare Providers and Systems), onde pergunta aos pacientes com que frequência a área em torno de seu quarto era silenciosa à noite. Em parte devido a essa questão, os arquitetos estão elaborando mais maneiras de tornar os quartos dos pacientes mais silenciosos. No entanto, não há nenhuma pergunta na pesquisa do HCAHPS sobre se o seu quarto estava escuro à noite.

Pense em todas as fontes de luz indesejadas à noite que podem estar presentes em um quarto de pacientes, como: monitores e outros dispositivos médicos; luz advinda do corredor e/ou luz externa; e luz de aparelhos em stand-by. Como nós, arquitetos, podemos projetar maneiras eficientes de escurecer os quartos dos pacientes para o período noturno? A exitosa recuperação dos pacientes pode depender disso.


Fonte: HCD Magazine

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Marlu Alves, é arquiteta, idealizadora do projeto Hospital: Uma Experiência Lúdica, que utiliza a arte para fins terapêuticos no ambiente hospitalar, É graduada pela Universidade Federal Fluminense, especialista em Arquitetura de Sistemas de Saúde pela UFBA, e autora do livro infantil O Quarteto Aventureiro. Como atividade principal, desenvolve projetos de arquitetura destinados à área da saúde, se dedica ao estudo da influência do design na recuperação e melhora da saúde do paciente, e a utilização do lúdico no bem estar do paciente pediátrico.

contato: mahd.arquitetura@gmail.com

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