Caminhos da arquitetura hospitalar após o COVID-19.



Estamos passando por um tempo jamais experimentado pela maioria das pessoas no mundo. É sabido reconhecer o esforço sobre humano dos profissionais da saúde colocando-se em risco para salvar outras vidas. Estamos dentro do período de isolamento, tentando nos adaptar para um novo tempo e paulatinamente afrouxando as restrições de funcionamento das atividades do comércio, da indústria, e tantas outras. Ainda teremos pela frente dias difíceis pois os números de infectados pelo Covid-19 ainda são crescentes. O sistema de saúde sentiu o embate, foi e ainda é preciso preservá-lo do colapso, para que o atendimento aos pacientes não seja insuficiente.

É sabido também por todos nós que voltar a normalidade anterior não mais será possível, e que devemos repensar nossas atividades de hoje, de uma forma diferente e adaptada. Com tudo isso, os profissionais de saúde estão redescobrindo e inserindo novas práticas na atenção ao paciente. Algumas questões precisam ser avaliadas. Como será o “novo normal” após esta pandemia na assistência à saúde? Que novas práticas assistenciais estarão inseridas no cotidiano dos estabelecimentos à saúde? Como os futuros projetos e atuais adequações poderão auxiliar nas possíveis soluções para as mudanças e situações ainda enigmáticas, até o momento, termos pela frente?

Nos EUA, designers conjuntamente com profissionais da saúde de todo o pais, identificaram 10 áreas em que sofrerão mudanças, dentre elas, algumas já estão passando por alterações concomitantemente ao atendimento.

1. Prevenção de infecções. A equipe da CCIH (Comissão de Controle de Infecção Hospitalar) do hospital terá voz mais ativa na elaboração dos futuros projetos. Se hoje a qualidade dos acabamentos e superfícies é importante nas diretrizes dos projetos, daqui para frente será cada vez mais cobrado que essas superfícies sejam de mais fácil limpeza e a utilização de acabamentos que suportem produtos químicos mais severos. A luz UV será mais utilizada em áreas de alto e médio risco. Áreas de baixo risco precisarão de protocolos de limpeza mais bem definidos. Tudo isso precisará ser feito sem sacrificar os aspectos de hospitalidade e bem-estar que foram desenvolvidos e implantados nos últimos tempos, os quais permeiam os projetos de hoje.

 

2.  Quarto de isolamento. Uma das maiores ações que tem ocorrido durante a pandemia é aumentar o quantitativo de quartos de isolamento. Desta forma é possível concluir que no futuro os novos projetos precisarão considerar o aumento de grupos de quartos, unidades e alas inteiras que possam ser pressurizadas negativamente e separadas do restante do hospital em uma pandemia. Essas unidades isoladas precisarão receber facilmente seus pacientes vindos da emergência, além de estabelecer um fluxo adequado dos resíduos sem passar por outras áreas do hospital. Considerando que, de forma adaptável, nem todos os quartos dessas alas, serão providos de ante-câmara (exigido para quartos de isolamento), desta forma será necessário estabelecer conjuntamente à equipe de assistência como a equipe irá remover o EPI sem contaminar o corredor fora das alas de isolamento.

 

3. Ambientes compartilhados pela equipe. Será importante reconsiderar nos futuros projetos, os ambientes utilizados pela equipe. Aspectos como dimensões, separação das estações de trabalho, compartilhamento dessas estações e o número de pessoas em um escritório, deverão ser reavaliadas. Grandes salas de descanso compartilhadas e vestiários tendem a serem eliminadas em favor de espaços menores. Além disso, as áreas administrativas poderão ser transferidas para fora do hospital ou as atividades podem ser inseridas em sistema de homeoffice reduzindo assim a equipe dentro do ambiente de assistência. Outro fator importante é o número de estudantes e também de fornecedores no hospital em determinados períodos, o qual também pode ser limitado.

 

4. Triagem de pacientes antes de entrarem no pronto-atendimento. Durante a pandemia foram instaladas tendas fora das unidades de emergência. Porém essa estrutura é frágil e está suscetível a eventos climáticos. No entanto elas apontam para a necessidade de reavaliar o processo de triagem e classificação dos pacientes recém chegados à Unidade. Precisamos criar novos processos de maneira a triar as pessoas antes que elas entrem pela porta da frente, incluindo a tele-triagem, aplicativos e várias entradas e soluções em espera, com base nas necessidades médicas. As instalações externas ao hospital precisam ser resistentes, duráveis e rapidamente montadas, com conexões de serviços planejadas e já em funcionamento.

 

5. Repensando salas de espera. Hoje parece inconcebível que as pessoas estejam dispostas a sentar-se ao lado de estranhos que sejam potenciais infecciosos enquanto aguardam por uma consulta ou um procedimento médico, tanto pelos próprios pacientes como também por seus acompanhantes. Nesse sentido, há a tendência para que o auto check-in e o auto-alojamento sejam implementados minimizando as interações. Pacientes e famílias serão incentivados a esperar do lado de fora ou em seu carro. Com isso, todos os ambientes coletivos, incluindo salas de espera, saguões e instalações para refeições, deverão ser cuidadosamente planejados e projetados para criar uma maior separação física entre as pessoas.

 

6.  Planejando a capacidade de aumento de internação. No processo projetual hospitalar já é considerado, há anos, as questões de flexibilidade, agora porém, devemos considerar uma maior área para essa flexibilização com o objetivo de acomodar um maior número de pacientes. Algumas perguntas precisarão ser respondidas: "Como inserir dois leitos em um mesmo quarto?" "Quais salas podem acomodar atendimento intermediário ou capacidade de UTI?" "Como a preparação cirúrgica e a RPA podem ser convertidas em UTIs?" e "Se necessário, como as cirurgias de emergência ainda são realizadas?" Precisamos explorar essas questões em todos os sistemas de construção (energia, gases medicinais, ar condicionado, etc.) para garantir que os serviços para essas unidades possam atender à grande carga de equipamentos e também pacientes.

 

7. Capacidade de pico em centros ambulatoriais. O crescimento no atendimento ambulatorial será retomado assim que nossa atual crise sanitária passar. Os centros ambulatoriais possuem energia de emergência e gases medicinais bastante limitados, o que o torna com capacidade de atingir o pico mais rapidamente. Nos Estados Unidos, muitos hospitais incluem em seus planos de surto de epidemia, hotéis e centro de convenções, mesmo que não tenham sido projetados especificamente para o uso de assistência à saúde, porém, a partir de agora, à medida que desenvolvemos clínicas ambulatoriais, centros de cirurgia ambulatorial, dentre outros estabelecimentos de baixa e média complexidades, precisamos considerar a infraestrutura necessária para que essas instalações atendam os pacientes mais doentes durante uma possível próxima pandemia.

 

8.  Maior controle da cadeia de suprimentos. Os hospitais e todo o sistema de saúde em geral buscarão ter maior controle de sua cadeia de suprimentos. Provavelmente estocarão os principais suprimentos, equipamentos e medicamentos para evitar futura escassez. É possível também que venham desenvolver acordos de aquisição com fornecedores terceirizados de suprimentos e equipamentos para estoques que não podem manter por conta própria e esperarão maior apoio de suas organizações de compras em grupo. Alguns estoques podem estar em hospitais individuais, enquanto sistemas maiores podem manter suprimentos regional ou nacionalmente. Precisamos projetar instalações para abrigar esses inventários, bem como sistemas para mantê-los, atualizá-los e reabastecê-los.

 

9. Impacto da telemedicina nos tamanhos das instalações. A telemedicina cresceu ao longo desta crise, permitindo que os médicos realizem exames de rotina e triagem dos pacientes sem colocar em risco o profissional médico ou o paciente. O impacto da telemedicina nos futuros projetos será imenso. A tecnologia é relativamente barata, os médicos podem atender mais pacientes em um período de tempo reduzido e praticamente não é necessário muitas áreas utilizadas. É provável que os centros ambulatoriais sejam menores no futuro, pois a telemedicina reduzirá a necessidade de salas de exames, salas de espera e espaços de suporte.

 

10.Salas cirúrgicas de isolamento e sala de exames para cateterismo. As diretrizes dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças norte-americanos a respeito de cirurgia de um paciente infectado, exigem que a sala cirúrgica permaneça com pressão positiva, que permaneça lacrada durante toda a cirurgia e que nenhuma atividade ocorra dentro da sala por um longo período após a intubação e extubação. Embora importantes, esses processos aumentam bastante a duração dos atos cirúrgicos e limitam a mobilidade da equipe dentro e fora da sala, antes, durante e depois da cirurgia. Para funcionar de maneira mais eficaz e eficiente, muitos outros hospitais darão ênfase aos suportes de controle de infecção e salas de exames para cateterismo com o fluxo de ar adequado, além de um design orientado para proteger o paciente contra infecções cirúrgicas e, ao mesmo tempo, proteger a equipe na sala e as instalações vizinhas. Isto exigirá a adição de antecâmaras pressurizadas da sala de cirurgia, no corredor e no centro cirúrgico ou na sala de comando.

Diferentemente da maioria das tendências de design de saúde que se desenvolvem ao longo de vários anos, essas 10 mudanças já se tornaram necessárias em poucas semanas durante o advento da pandemia do Covid19 no sistema de saúde norte-americano. Os hospitais foram forçados a descobrir como fazer mudanças de emergência com suprimentos e recursos limitados. Nos próximos anos, essas organizações precisarão ajustar suas atividades para futuras pandemias, as normas precisarão ser reescritos para atender com segurança a essas novas situações, e serão necessários subsídios do governo para que os hospitais adéquem suas estruturas de forma permanente.

No Brasil não é diferente, e é preciso readequar nossas estruturas hospitalares para o tempo atual e projetarmos estabelecimentos de saúde considerando novos padrões epidemiológicos para o futuro. Nesta linha de enfrentamento, a arquitetura tem agora ainda maior responsabilidade de interferir primordial e positivamente para o futuro do design e da construção de estabelecimentos de serviços de saúde para melhor acomodar essas novas realidades operacionais. 

 

* Tema abordado por James Albert na HCD Magazine.

* Texto adaptado


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Marlu Alves, é arquiteta, idealizadora do projeto Hospital: Uma Experiência Lúdica, que utiliza a arte para fins terapêuticos no ambiente hospitalar, é também autora do livro infantil O Quarteto Aventureiro. Graduada pela Universidade Federal Fluminense, é especialista em Arquitetura de Sistemas de Saúde pela UFBA e Master em Gerenciamento de Projetos pela UFF. Como atividade principal, desenvolve projetos de arquitetura destinados à área da saúde, se dedica ao estudo da influência do design na recuperação e melhora da saúde do paciente, e a utilização do lúdico no bem estar do paciente pediátrico.
contato: mahd.arquitetura@gmail.com
https://www.linkedin.com/in/marlualves/ 

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